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Oeste Cidade | Notícias de Presidente Prudente e Região
CRÔNICA DO MAGRÃO

O suor, a enxada e o canto: a profundidade do monangambé

A poesia de António Jacinto, eternizada na voz de Ruy Mingas, transforma a exploração dos trabalhadores angolanos em símbolo de resistência e.

Por Redação, Persio Isaac, Oeste Cidade | Notícias de Presidente Prudente e Região

O suor, a enxada e o canto: a profundidade do monangambé

​A história de Angola não se encerra nos gabinetes da colonização; ela respira nas mãos calejadas de quem sustentou o país com o próprio corpo. Quando o nome Monangambé ecoa, ele deixa de ser apenas uma palavra para se transformar no símbolo máximo da exploração e, ao mesmo tempo, da indestrutível dignidade humana.

​Nas grandes extensões de terra onde o café e o algodão cresciam viçosos à custa do sangue nativo, o trabalhador — o filho do escravo, o filho do homem que trabalha — não era visto como gente, mas como inventário. Contudo, na poesia de António Jacinto e na voz sublime de Ruy Mingas, essa mesma dor foi transformada em arte eterna, em um lamento que é também uma acusação e um abraço.

​A poesia em sua inteireza

​Para compreender a alma dessa obra-prima da música e da literatura angolana, é preciso mergulhar nos versos viscerais de António Jacinto, eternizados pela sensibilidade musical de Ruy Mingas:

​Vão lá chamar o monangambé!

Quem é que traz o terno branco?

Monangambé!

Quem é que limpa o pasto?

Monangambé!

Quem é que corta a cana?

Monangambé!

Quem é que pisa o café?

Monangambé!

Trabalha o homem

sua para o patrão rico...

Trabalha o homem

de sol a sol

de lua a lua

com a enxada ao ombro...

e o homem não tem nome!

​Nesses versos, a repetição da pergunta — Quem é que faz? — funciona como o bater monótono de um relógio da opressão, culminando na frase mais cortante da poesia moderna africana: "e o homem não tem nome!". O sistema colonial reduzia o ser humano à sua função produtiva, despindo-o de identidade, de história e de destino.

​A crônica lírica: o peso e a canção

​O sol não nasce em Angola para iluminar; ele desponta como um capataz de fogo sobre as roças.

​Nas plantações de café de Cuanza ou nos campos infindáveis de algodão de Malanje, o ar é denso, pesado do cheiro da terra revolvida e do suor que brota na testa sem pedir licença. O Monangambé avança entre as fileiras verdes e vermelhas. Cada golpe de enxada no chão seco é um eco de um fardo invisível.

​Não há músicas de festa ali. O que há é um silêncio cortado apenas pelo zumbido dos insetos e pelo estalar seco dos galhos. Mas à noite, quando a fogueira acende as sombras no musseque ou na senzala, a alma reencontra o seu idioma. A voz que canta na penumbra não pede piedade; ela guarda a memória de onde veio e o segredo de quem há de resistir.

​Ruy Mingas pegou esse grito sufocado e deu-lhe asas. Quando a sua voz intoa os versos de António Jacinto, a música não serve ao esquecimento; ela converte-se num monumento à resistência. O homem sem nome ganha, na cadência da melodia, a eternidade que os senhores da terra tentaram lhe roubar.