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CRÔNICA DO MAGRÃO

Crônicas do desencanto: a cicatriz da dúvida e o fogo do ódio

O texto relaciona a desconfiança nas instituições e o silêncio de lideranças à polarização, ao ressentimento e ao risco de agravamento da crise.

Por Redação, Persio Isaac, Oeste Cidade | Notícias de Presidente Prudente e Região

Crônicas do desencanto: a cicatriz da dúvida e o fogo do ódio

​Há algo profundamente inquietante quando a história dobra uma esquina sem que a sociedade sinta ter participado da curva. Para Ibn Khaldun, as grandes rupturas civilizacionais raramente começam com invasões estrangeiras ou colapsos econômicos repentinos; elas germinam na erosão silenciosa da legitimidade, no momento exato em que a palavra dos governantes e o veredito das urnas deixam de produzir a apaziguadora sensação de justiça.

​Quando a vitória política vem acompanhada pelo espectro da incerteza — e quando as lideranças de oposição optam pelo silêncio ou por um assentimento tático sem enfrentar o questionamento real que fervilha nas ruas —, cria-se um vácuo perigoso. O cidadão que desconfia do processo sente-se duplamente abandonado: por quem venceu sob suspeita e por quem deveria representá-lo e escolheu a passividade das conveniências.

​A Rachadura e o Ódio Ideológico

​Na teoria khalduniana, a Assabiya é o cimento invisível. Sem ela, a sociedade não se torna apenas apática; ela se fratura em facções beligerantes. É esse o retrato do Brasil contemporâneo. A política deixou de ser um terreno de debate sobre caminhos para o futuro e transformou-se em uma arena moral maniqueísta, onde o opositor não é um cidadão com ideias divergentes, mas um inimigo existencial a ser aniquilado.

​A divisão entre "esquerda" e "direita" deixou de refletir visões de mundo econômicas ou sociais para se tornar uma guerra de trincheiras carregada de ressentimento:

​O Silêncio dos Líderes: Ao acatarem os resultados sem dar respostas convincentes aos anseios de transparência exigidos por sua própria base, lideranças ditas conservadoras aceleraram o sentimento de traição. A sociedade percebeu que as elites políticas, independentemente de rótulos, jogam um jogo de acomodação em que o povo é mero figurante.

​A Realimentação do Ódio: Sem uma narrativa integradora e sem a confiança nas regras do jogo, a população busca abrigo nas bolhas ideológicas. O ódio ao outro lado passa a ser a única força mobilizadora, uma "coesa provisória" baseada na rejeição mútua, e não no amor ao país.

​O Colapso do Espaço Público: Quando não há consenso mínimo sobre a verdade factual ou sobre a lisura dos processos institucionais, a conversa pública se torna impossível. Resta apenas o atrito moral e a hostilidade cotidiana.

​A Lição Perigosa da História

​A história é implacável ao mostrar que o desencanto não é um estado estático; é uma matéria-prima altamente instável. Quando a maioria de um povo perde a fé na possibilidade de mudança pelas vias normais e passa a enxergar as instituições como um teatro jogado contra si, abrem-se as portas para dinâmicas imprevisíveis.

​Ibn Khaldun advertia que, quando a solidariedade original se esgota e o poder passa a se sustentar unicamente no aparato formal do Estado e no medo, a estrutura social entra na fase final de seu ciclo: o momento em que qualquer faísca pode desmoronar o que parecia inabalável.

​O perigo do desencanto acumulado não é apenas a apatia, mas a metamorfose da frustração em desespero cívico. Nações que alimentam o ódio entre seus filhos e sufocam a dúvida razoável em vez de respondê-la com transparência absoluta costumam colher tempestades.

​O Impasse do Sistema

​O sistema político atual parece apostar que o tempo apagará as dúvidas e que a polarização anestesiará a exigência por respostas. Trata-se de um erro histórico crasso. A suspeita não resolvida e o ódio cultivado não desaparecem com decretos ou discursos oficiais; eles se depositam no subsolo da vida nacional como combustível à espera de um catalisador.

​Enquanto o Brasil insistir em ignorar que a confiança não se impõe de cima para baixo, mas se constrói na clareza absoluta das regras e no respeito ao sentimento popular, continuaremos aprisionados nesta espiral: um país dividido por rancores, governado sob a sombra do ceticismo e cada vez mais distante da paz social de que precisa para existir.

​Diante desse diagnóstico em que a própria oposição formal perdeu a capacidade de canalizar a insatisfação popular, de onde você acredita que pode surgir uma verdadeira força de renovação moral no país?