A vaidade é o pecado que o Diabo mais gosta
Disputas por protagonismo e interesses individuais fragmentaram a direita, apesar da maioria conquistada no Congresso, aponta o texto.
Por Redação, Persio Isaac, Oeste Cidade | Notícias de Presidente Prudente e Região

O sol ainda despontava na pré-campanha e os gabinetes já transbordavam certezas absolutas. Em Goiânia, Belo Horizonte e nas salas de reuniões da Faria Lima, desenhava-se o mesmo diagnóstico: o país precisava de uma alternativa consistente, de um projeto estruturado para o futuro. No entanto, o diagnóstico comum deu lugar à disputa pelo protagonismo.
Ronaldo Caiado traçava a rota a partir do interior produtivo, fiando-se em sua experiência e pulso firme; Romeu Zema apresentava o modelo de gestão mineiro como o único contraponto técnico viável; até mesmo a novidade intelectual de Augusto Cury buscava um espaço na narrativa moral do país. Do outro lado da mesa, as pesquisas de opinião insistiam em apontar uma única direção matemática dentro do eleitorado conservador: Flávio Bolsonaro ostentava os maiores índices de intenção de voto no campo da direita.
A matemática, contudo, sucumbiu à vaidade e ao cálculo de ocasião. Siglas e lideranças calculavam fundos partidários, tempos de TV e o fortalecimento de seus próprios feudos regionais. Em vez da trégua por uma candidatura única e por um plano de país sério e propositivo, o primeiro turno tornou-se uma vitrine de ambições isoladas. A vaidade falou mais alto: cada liderança preferiu medir o próprio peso e testar o próprio nome a ceder espaço em prol de uma coalizão prévia. Não havia uma causa unificada pelo Brasil, mas sim projetos pessoais fantasiados de ideologia.
Passadas as eleições, o resultado trouxe um contraste absoluto entre as urnas do Legislativo e o desfecho do Executivo. Nas bancadas do Senado e da Câmara dos Deputados, a direita alcançou uma conquista histórica, erguendo uma maioria sólida e articulada, capaz de ditar o ritmo das pautas nacionais. Mas a comemoração parlamentar durou pouco diante das reviravoltas no comando político do grupo.
Na disputa pela Presidência, o pleito transcorreu sob uma densa névoa de desconfiança e contestação das regras do jogo. A disparidade nos limites de uso da máquina pública, as decisões judiciais atinentes à propaganda eleitoral e as controvérsias em torno da prorrogação do horário de votação em zonas específicas deixaram marcas profundas na credibilidade do processo perante o eleitorado conservador. A sensação de um pleito assimétrico inflamou as redes, criando um ambiente em que a legitimidade das urnas permaneceu sob forte suspeita.
Mas a ferida mais profunda não veio de fora; sangrou de dentro do próprio ninho. Nos bastidores da campanha, revelou-se que a serpente dormia no mesmo travesseiro. Denúncias apontaram a presença de um traidor cravado no núcleo duro da candidatura — uma figura de trânsito livre que, sob o manto da falsa lealdade, reportava passo a passo a rotina, os planos e as estratégias mais íntimas de Flávio Bolsonaro diretamente às cortes do Judiciário. A traição expôs o cínico e frio espetáculo da fraqueza de caráter. Ficou provado, como profetizara Maquiavel, que a natureza humana é essencialmente mesquinha, covarde e ambiciosa: os homens esquecem mais rapidamente a morte do próprio pai do que a perda do patrimônio ou a ameaça aos seus privilégios. Pela preservação do próprio pescoço e pelo apetite das futuras benesses, vendeu-se o aliado sem um pingo de remorso.
Contudo, exatamente no momento em que a base eleitoral exigia uma postura coesa para questionar as inconsistências e acionar as instâncias legais com o peso da vitória legislativa, a cúpula da direita optou pelo caminho da acomodação individual. A força política conquistada nas urnas não foi utilizada como alavanca de convergência, mas sim como moeda de troca institucional.
Com a confirmação do resultado das urnas e o cerco de investigações judiciais se fechando — impulsionado pelos relatórios soprados no sigilo pelo infiltrado —, Flávio Bolsonaro deixou o país com destino aos Estados Unidos. O gesto expôs a fragilidade do comando político diante do primeiro grande obstáculo.
Sem a presença do candidato e diante da oportunidade de reorganização pragmática, a suposta "união de princípios" do campo conservador desmoronou em velocidade recorde. As máscaras da coerência caíram para dar passagem ao cálculo frio:
O Pragmatismo das Siglas e dos Governos: Valdemar Costa Neto, visando a preservação do PL e a gestão dos vultosos recursos da nova e gigantesca bancada, apressou-se em reconhecer o resultado proclamado pelas autoridades eleitorais. A sigla selou a aceitação do fato consumado para garantir seu espaço no orçamento e na mesa do Congresso. Na mesma linha, Tarcísio de Freitas agiu sob a lógica estritamente administrativa: defendeu a pacificação e o retorno à normalidade institucional, priorizando a governabilidade do estado de São Paulo e o alinhamento de repasses federativos em detrimento de uma contenda nacional.
A Oposição à Distância: Do outro lado do Atlântico, Flávio Bolsonaro tentou capitalizar a desconfiança da militância. Em uma primeira carta divulgada em suas redes sociais diretamente da Flórida, o senador chegou a se autoproclamar o "verdadeiro presidente eleito do Brasil", para logo em seguida ajustar a redação do documento, autodeclarando-se "líder da oposição" no exílio — uma manobra vista até por aliados de centro como desconectada da realidade prática de quem precisa legislar e governar dentro do país.
A sequência dos fatos deixou exposta a verdade mais incômoda sobre a direita brasileira: a ausência de um projeto de nação sólido, contínuo e altruísta. Acomodados em discursos de ocasião, seus líderes mostram que as alianças são maleáveis, que os princípios morais dobram-se facilmente aos interesses do momento e que a traição é a moeda mais corrente nas horas de tempestade.
Ao fim e ao cabo, a direita conquistou o Congresso, mas viu o projeto de poder ruir pela incapacidade de colocar o país acima das próprias pretensões. Entre a busca pelo controle dos fundos partidários, o cálculo de sobrevivência dos governadores, a delação silenciosa dos cupinchas e a liderança virtual exercida a milhares de quilômetros de distância, confirmou-se a máxima das coxias da política: no teatro das ambições humanas, a vaidade continua sendo o pecado favorito do Diabo.





