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Oeste Cidade
CRÔNICA DO MAGRÃO

A conta que não fecha no ponto de ônibus

Por Redação, Persio Isaac, Oeste Cidade

· Atualizado

A conta que não fecha no ponto de ônibus

Há algo de profundamente melancólico na rotina de quem espera o transporte coletivo no início da manhã. Seja na praça do Terminal, na calçada do Ana Jacinta ou no ponto do Humberto Salvador, o tempo do trabalhador tem uma contagem própria — medida pelo ponteiro do relógio e pela angústia de ver o horizonte e não enxergar o ônibus se aproximando.

​Na nossa amada Presidente Prudente, a catraca do transporte público sempre foi mais do que um simples torniquete de ferro: é uma fronteira social. E, agora, ao ver a tarifa saltar para R$ 6,00 sob a justificativa de uma tarifa técnica estarrecedora de R$ 15,23, a pergunta que ecoa no peito da nossa população não é apenas matemática. É humana, política e filosófica: até quando o cidadão pagará o preço do invisível?

​Dizer que o município injetou R$ 54 milhões em subsídios nos últimos anos é lançar um número maiúsculo sobre a mesa do debate público. Na frieza das notas oficiais, o valor impressiona e tenta construir a narrativa do socorro governamental. Mas, para quem vive a realidade das ruas, o cálculo é bem diferente. R$ 54 milhões da nossa própria arrecadação — tirados da saúde, da infraestrutura, da cultura e da educação — foram queimados no escapamento de uma frota que roda, muitas vezes, em desacordo com as reais necessidades da cidade.

​A equação prudentina tornou-se um paradoxo doloroso: paga-se R$ 12,07 por cada quilômetro rodado — um valor substancialmente acima da média de cidades irmãs do interior —, e o resultado é um custo por passageiro que beira o absurdo. Por que a nossa tarifa técnica precisa custar R$ 15,23? Por que arrastamos ônibus pesados e vazios em horários mortos por avenidas distantes, em vez de redesenhar as linhas, adotar veículos de porte inteligente, reorganizar os fluxos e respeitar o dinheiro do contribuinte?

​O aumento para R$ 6,00 atinge em cheio o bolso de quem mais precisa: o trabalhador autônomo, o estudante, o pequeno comerciante, o trabalhador informal que não conta com o vale-transporte do patrão. Para uma família que depende de duas ou três passagens diárias, cada real a mais no bilhete tira o pão e o remédio da mesa.

​Não se trata de negar a inflação, o preço dos pneus ou o custo do óleo diesel. Trata-se de reconhecer que o modelo atual ruiu. Insistir em cobrir buracos financeiros milionários sem exigir uma reengenharia profunda da operação é o mesmo que tentar encher um balde furado.

​O modelo ideal e perfeitamente implementável para Prudente existe — e passa por três pilares fundamentais:

​Gestão Pública da Bilhetagem com Remuneração por Quilômetro Auditado: A Prefeitura precisa reassumir o controle do sistema de arrecadação do bilhete e pagar a concessionária estritamente pelos quilômetros efetivamente rodados e fiscalizados (com metas rígidas de pontualidade, higiene e conforto). Isso elimina a margem para tarifas técnicas infladas e dá ao município o poder total sobre os itinerários.

​Reengenharia de Frota com Transporte Alimentador e Sob Demanda: Substituir os gigantescos ônibus convencionais, que hoje rodam quase vazios nos horários de entrepico e nos bairros mais distantes, por micro-ônibus ou vans integradas. Veículos menores têm um custo por quilômetro até 50% mais baixo, conectando o morador do bairro periférico até as linhas tronicais centrais com agilidade e economia.

​Fundo Municipal de Mobilidade com Fontes Alternativas: O transporte coletivo não pode depender exclusivamente do IPTU e do bolso do passageiro. É preciso direcionar recursos da outorga sobre aplicativos de transporte (Uber/99), receitas de publicidade em terminais e a arrecadação da Área Azul diretamente para subsidiar a passagem de quem realmente precisa.

​Presidente Prudente precisa de coragem técnica e visão de futuro. Redesenhar o transporte com inteligência não é cortar linhas para punir o passageiro; é otimizar a frota para valorizar cada centavo do dinheiro público.

​A história da nossa aldeia foi construída pelo trabalho duro de gente que não se acovarda diante das dificuldades. A nossa mobilidade urbana não pode continuar sendo um dreno de recursos e uma fonte constante de sobressaltos. Porque, no fim do dia, a mobilidade não é um favor que o Poder Público concede — é o direito elementar de ir e vir, de trabalhar, de viver e de sonhar numa cidade que precisa pertencer a todos.