Central do Brasil
Por Redação, Persio Isaac, Oeste Cidade - O seu portal de notícias
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O sol começa a aparecer dando mais um sinal de esperança para milhares de pessoas que vivem no mundo dos esquecidos, vindo de todas as partes, querendo e procurando um lugar ao sol. Mas nas encostas escarpadas do Rio de Janeiro, onde a alvorada é rasgada pelo estampido do fuzil e pelo eco da sirene, o sol não vem como promessa. Ele surge como uma testemunha muda de quem sobreviveu a mais uma noite sob o cerco.
Lá em cima, no morro, a rotina não espera a luz total. O pai de família abotoa a camisa de brim desbotada, dá um beijo na testa do filho que ainda dorme e sai de casa no escuro, desviando das poças de esgoto e dos rapazes de chinelo e bandoleira que controlam a esquina. A empregada doméstica desce os degraus de concreto com o terço na mão, o peito apertado a cada passo, rezando para que a curva da ladeira não vire linha de tiro de uma facção rival ou de uma operação surpresa. Na favela, o crime organizado cobra pedágio sobre o gás, a internet, a luz e o próprio direito de respirar. Não há escolha, não há refúgio, não há Estado — apenas a imposição da força.
No entanto, nos estúdios iluminados e nos gabinetes acarpetados do poder, a complexidade dessa tragédia humana é reduzida a um deboche rasteiro. Ao disparar em rede nacional que o adversário era um "malandro carioca", o Presidente da República não atingiu apenas o rival de ocasião; assinou embaixo do mais antigo e sórdido preconistecimento das elites do país. Em uma frase irresponsável, ressuscitou a caricatura folclórica do carioca como um ser indolente, velhaco, avesso ao esforço e adepto da trapaça. O estigma, que há décadas serve de álibi para o abandono social, ganhou a chancela do topo da República.
Se esses homens de paletó tivessem a coragem de descer dos seus blindados e caminhar entre a multidão que se espreme no pátio da
Central do Brasil às cinco da manhã, veriam o tamanho da própria pequenez.
A Central é o coração pulsante dessa dor coletiva. É o afunilamento de centenas de milhares de almas massacradas, expelidas pelas periferias da Baixada e pelas favelas da Zona Norte, buscando na força bruta do próprio corpo a garantia do pão. Ali, a mulher que vai encarar doze horas de faxina na casa da Zona Sul carrega nos pés inchados a marca do descaso. O servente de pedreiro, com as mãos grossas e calejadas de cimento, engole o café frio num copo de plástico enquanto aguarda o trem que invariavelmente vai atrasar, quebrar ou circular sem ar-condicionado num calor infernal.
Chamar esse povo de "malandro" é uma violência moral indigesta. É a perversidade de um sistema que gourmetiza a miséria, batizando o desespero de "jogo de cintura" e a humillation diária de "jeitinho". A dita "malandragem" imposta pela narrativa oficial nada mais é do que o anestésico que perdoa o Estado por sua omissão criminosa. Se o trabalhador sucumbe, o sistema acusa a sua falta de esperteza; se ele sobrevive, a elite celebra o seu "charme tropical".
Na favela dominada pelo terror, ninguém é "malandro" por opção — é refém de um poder paralelo imundo. Na catraca da Central do Brasil, ninguém se espreme no vagão para passar a perna nos outros — corre desesperadamente para não ser soterrado pela indigência.
A ironia mais amarga dessa terra é que os rotulados como malandros são justamente aqueles que sustentam a engrenagem com o próprio suor, sangrando diariamente no anonimato. Enquanto isso, os verdadeiros especialistas na arte de viver sem trabalhar — os caciques que negociam emendas na sombra, os demagogos de palanque e os donos do poder — continuam arrotando virtude na televisão, rindo do povo que eles insistem em desrespeitar, sem jamais saberem o gosto do suor de quem pega o trem da alvorada.
Afinal, para entender essa terra onde o cinismo do poder ignora o sangue do asfalto, vale resgatar a emblemática frase do cineasta Rogério Sganzerla: "Feliz é o caolho que só enxerga a metade da realidade".





